No atual panorama do turismo nacional, o mercado espanhol não representa apenas um "vizinho de proximidade", é o pilar fundamental da procura externa para a região do Porto e Norte de Portugal. Sendo a 15.ª maior economia mundial e a 4.ª maior da União Europeia, em 2024, a Espanha consolidou-se como o 14.º maior mercado emissor de turistas a nível global. Para os stakeholders da nossa região, compreender este gigante é imperativo para garantir a competitividade e a sustentabilidade do setor.
Com uma população de 48,8 milhões de habitantes, a Espanha gera cerca de 8,9% do PIB da União Europeia – números de 2024. A sua economia, fortemente orientada para os serviços (77,2% do PIB), mantém o turismo como um setor de relevância crítica. Mais do que turistas, os espanhóis são os nossos principais parceiros comerciais: em 2024, a Espanha foi o 1.º cliente das exportações portuguesas de bens (quota de 26,5%) e o 1.º fornecedor das nossas importações (33,1%).
Fonte: Travel BI by Turismo de Portugal. Mercado em números. Agosto de 2025
Esta interdependência económica tem também tradução no turismo. Em 2024, o mercado espanhol gerou 27,9 milhões de viagens outbound, um crescimento de 10,9% face aos níveis pré-pandemia de 2019. Portugal capta 8,7% desta quota, posicionando-se como o 3.º destino preferencial dos espanhóis, apenas atrás de França e Itália.
Se a nível nacional a Espanha é o 2.º mercado em hóspedes e o 3.º em dormidas, para a região Norte a liderança é absoluta. Espanha é o 1º mercado de procura externa para a região. O Norte é o principal destino nacional dos turistas espanhóis, absorvendo 29,1% do total de dormidas deste mercado em Portugal, em 2024. Este domínio acentuou-se no primeiro semestre de 2025, com a quota regional a subir para os 30,6%, como se pode verificar no gráfico seguinte.
Quota regional de dormidas do mercado Espanha no 1.º semestre de 2025
FonteTravel BI by Turismo de Portugal. Mercado em números. Agosto de 2025
Em termos de volume, o mercado espanhol registou 2,4 milhões de hóspedes e 5,5 milhões de dormidas em Portugal, em 2024. No entanto, os dados mais recentes de 2025 (até outubro) indicam um ligeiro decréscimo acumulado de 2,1% nas dormidas no Porto e Norte, o que exige uma análise atenta às dinâmicas de retenção.

Fonte: Elaboração própria com base em dados do INE
Uma das maiores virtudes do mercado espanhol é a sua capacidade de dispersão pelo território, sendo o mercado externo com o fluxo mais equilibrado na região. Cerca de 30% das dormidas espanholas ocorrem fora da Área Metropolitana do Porto (AMP).
Distribuição por NUTS III (2025):
Fonte: Elaboração própria com base em dados do INE
O "calcanhar de Aquiles" deste mercado espanhol é a sazonalidade. Os dados revelam uma concentração de 40,7% das dormidas no 3.º trimestre (julho, agosto e setembro). O pico em agosto é extremamente acentuado em comparação com as viagens que os espanhóis fazem para outros destinos internacionais.
Fonte: Elaboração própria com base em dados do INE. O gráfico acima compara a sazonalidade das viagens ao estrangeiro totais e das dormidas no Norte de Portugal do mercado espanhol através de um índice com base na média anual (=100), o que permite analisar padrões temporais de forma comparável, independentemente das diferentes unidades de medida e da escala dos indicadores.
Oportunidades estratégicas: No gráfico anterior observa-se uma subcaptação clara nos meses de janeiro, fevereiro e junho. Nestes meses, os espanhóis viajam para o estrangeiro, mas o Norte de Portugal não consegue atrair uma quota proporcional. O desafio para os stakeholders não é o verão — que já está consolidado —, mas sim criar ofertas atrativas para o inverno e o início da época alta.
Para personalizar a oferta, o Turismo de Portugal identifica o perfil típico do ‘turista espanhol’ como Lucía, a entusiasta de escapadinhas.
• Idade e intenção: Com uma idade média de referência de 24 anos (perfil jovem/adulto), 31% dos espanhóis pretendem incluir Portugal na sua próxima viagem ao Sul da Europa;
• Duração da estada: É um mercado de curta/média duração, já que 48% dos visitantes ficam entre 4 e 6 noites;
• Motivações: O lazer é soberano. Destacam-se a Cultura e Património (24%), a Natureza e Ar Livre (18%) e os City-breaks (17%);
• Planeamento: Devido à proximidade, o horizonte de reserva é curto, com forte incidência nas viagens planeadas para o outono (64%).
O mercado espanhol é o 5.º maior em receitas turísticas para Portugal, tendo gerado 2.834 milhões de euros em 2024 (um aumento de 8,7% face a 2023). No Porto e Norte, o volume de operações com cartões bancários espanhóis detém uma quota de 35,7%, a mais alta do país.
Dados mercado Espanha - Procura em Portugal 2024
Fonte: Travel BI by Turismo de Portugal. Mercado em números. Agosto de 2025
E, se formos olhar com atenção, onde gastam o dinheiro estes visitantes espanhóis?
O orçamento é contido, mas fiel: 45% dos turistas espanhóis preveem gastar até 1.000€ por pessoa na sua estada. No 1.º semestre de 2025, o volume de operações em cartão cresceu 8,5%, apesar da ligeira descida no número de dormidas, o que sugere um maior gasto por visitante.
A hotelaria é a escolha predominante (cerca de 73% das dormidas), com destaque para as unidades de 4 estrelas (46,5%) e 3 estrelas (31,6%). O Alojamento Local mantém uma quota estável de cerca de 17%.
Quanto à acessibilidade, a operação aérea é robusta. O verão de 2025 teve 52 rotas a ligar 20 cidades espanholas a Portugal, com destaque para a liderança da TAP Air Portugal (30,6% de quota) e da Ryanair (21,6%). Madrid (42,8%) e Barcelona (30,3%) continuam a ser as principais cidades de origem dos passageiros desembarcados.
Fonte: Travel BI by Turismo de Portugal. Mercado em números. Agosto de 2025
Para o próximo ano, as perspetivas são de crescimento no orçamento de viagem dos espanhóis, apesar da incerteza económica. E aqueles que operam neste mercado devem estar atentos a cinco tendências emergentes, identificadas pelo Turismo de Portugal:
1. Inteligência Artificial (IA): A IA passa a ser o novo agente de viagens digital, ajudando a criar roteiros personalizados e a escolher destinos;
2. Desconexão e bem-estar: Cresce a procura por destinos de montanha e experiências que promovam a saúde mental e a "desintoxicação digital";
3. Influência da cultura Pop: Séries, filmes e redes sociais são os novos catalisadores na escolha de destinos;
4. Gastronomia autêntica: O interesse vai além dos restaurantes; os espanhóis procuram visitar mercados locais e comprar produtos genuínos;
5. Luxo em pequenas doses: Valorização de experiências premium pontuais e hotéis icónicos em escapadinhas curtas, em vez de viagens mais longas.
Espanha é o nosso mercado de segurança, mas os dados de 2025 mostram que não podemos dar o seu crescimento como garantido. A ligeira quebra nas dormidas e a forte concentração sazonal em agosto indicam que a estratégia deve passar por diversificar a oferta para os meses de inverno e potenciar sub-regiões como o Douro, que ainda têm uma margem de progressão enorme junto dos nossos vizinhos, sem esquecer aqueles que geograficamente estão mais próximos, nas regiões da Galiza e de Castela e Leão. Por último, importa não perder de vista Lucía — uma viajante que valoriza a cultura, a gastronomia e a facilidade de acesso — e integrar ferramentas tecnológicas no atendimento. Esta pode ser a chave para manter o Porto e Norte como o destino número um no coração dos espanhóis.