Turismo LGBTQ+: O futuro é inclusivo

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A Organização Mundial do Turismo (OMT) calcula que os turistas LGBTQ+ representam 10% dos turistas mundiais. Os dados do CBI - Centre for the Promotion of Imports from developing countries -, um instituto governamental baseado nos Países Baixos, mostram, por seu lado, que estes turistas tendem a viajar mais e a possuir rendimentos acima da média, sobretudo pelo elevado número de casais DINK (dual income, no kids).

Ainda assim, as escolhas dos seus destinos de viagem acabam, muitas vezes, por ser condicionadas pela segurança e aceitação, situações que não encontram em diversas regiões do mundo. Portugal é, atualmente, reconhecido como um dos países mais seguros para turistas LGBTQ+, ocupando uma posição de destaque no Top 10 internacional, segundo a Tourism Review News. Este reconhecimento resulta de políticas públicas progressistas e de uma sociedade maioritariamente acolhedora.

O Gay Travel Index da Spartacus, com dados que foram recolhidos em fevereiro deste ano, coloca Portugal na primeira posição, em igualdade com Canadá, Islândia, Malta e Espanha. Este ranking, que é apresentado todos os anos desde 2012, avalia 18 parâmetros, que vão desde leis anti-discriminação à existência de pena de morte. Estes são os primeiros classificados:

Fonte: Spartacus Gay Travel Index 2025

No plano institucional, o Turismo de Portugal tem vindo a adotar uma abordagem inclusiva e afirmativa, evidenciada na sua Estratégia 2027 com o compromisso de um “turismo para todos” — um princípio orientador que reforça a importância de acolher o segmento LGBTQ+ com naturalidade, respeito e qualidade.

A campanha “Proudly Portugal”, desenvolvida com o apoio do Turismo de Portugal, reforça esta visão ao posicionar o país como um destino de eleição para viajantes LGBTQ+, não apenas pela oferta turística, mas sobretudo pelo ambiente de liberdade, segurança e autenticidade que oferece.

Ao falar em turismo LGBTQ+, há ainda a ter em conta que estamos a referir-nos a um grupo vasto e diverso, com particularidades que têm de ser tidas em conta. Por exemplo, e como nota o CBI, este mercado atravessa todas as gerações, etapas da vida, níveis socioeconómicos e realidades familiares. O que significa que não existe uma “fórmula” ideal em termos de destinos ou atividades que consiga atrair todos os públicos deste segmento.

Tal como nota o Turismo de Portugal, este segmento “não é apenas sobre a promoção de determinados destinos ou de determinadas atividades, é essencialmente sobre a promoção de um turismo mais positivo e da criação de um ambiente seguro e acolhedor para todos, tanto turistas como comunidade local, independentemente do seu género ou orientação sexual”.

Impacto económico do turismo LGBTQ+

Segundo o estudo “Study of Influential Factors That Affect LGBTQ’s Travel Destination Choice Decision”, estima-se que o impacto económico anual em termos mundiais do turismo LGBTQ+ seja superior a 140 mil milhões de dólares e que este mercado atinja, em 2030, os 568.5 mil milhões de dólares.

Já os dados do CBI estimam um valor de mercado na Europa de cerca de 64 mil milhões de euros e um crescimento anual de 1.4%.

O impacto económico é de tal forma significativo que foram criados conceitos como “pink dollar” ou “pink money”, ou seja, o dinheiro gasto pela comunidade LGBTQ+.

O turismo LGBTQ+ tem, ainda, um enorme impacto social, já que, ao promover e receber experiências de viagem inclusivas, o setor do turismo pode ajudar a criar mais tolerância e compreensão.

Alojamentos, eventos, tours e estratégias de marketing inclusivos e capazes de dar resposta às motivações dos turistas LGBTQ+ são, também, uma forma de criar emprego, gerar rendimentos e melhorar as infraestruturas locais, o que tem um impacto positivo nos destinos.

No relatório ‘LGBTQ+ Travel insights’, elaborado pela Associação de Turismo do Porto e Norte em maio do ano passado, é apresentado um exaustivo perfil dos turistas que compõem este segmento. No gráfico seguinte, que retrata a realidade dos norte-americanos, é possível verificar, por exemplo, que em cada 100 pessoas inquiridas 78 tinham um passaporte válido; que uma esmagadora maioria, 76%, pretende viajar para fora dos Estados Unidos; que nos últimos 12 meses fizeram 4 voos e pagaram 11 noites de alojamento; e, finalmente, que a maioria viaja em casal, 62%.

Fonte: ‘LGBTQ+ Travel insights’, ATPN, maio de 2024

O que influencia a escolha do destino?

Fonte: ‘LGBTQ+ Travel insights’, ATPN, maio de 2025

A forma como o destino acolhe turistas LGBTQ+ é muito importante na escolha, mas não é a única razão com impacto na decisão, como mostra o gráfico acima. A relação custo-benefício, a segurança, a beleza natural e as experiências culturais diversificadas são outros dos critérios relevantes. Dados que são confirmados por outros estudos que procuram analisar as motivações na origem das preferências de viagens.

Sem surpresa, e tal como acontece com muitos turistas, sobretudo nas gerações mais novas, as campanhas de marketing personalizadas, influencers (neste caso LGBTQ+) e eventos e atividades específicos para esta comunidade são importantes na escolha do destino. Instagram, Twitter e aplicações de viagem criadas especificamente para este segmento também influenciam as decisões.

Ainda assim, há que ter em conta que, devido aos diferentes níveis de reconhecimento legal, normas culturais e as visões sociais em relação aos grupos LGBTQ+, as dinâmicas deste semento podem diferir drasticamente entre regiões geográficas.

O que procuram os turistas LGBTQ+ na Europa?

Num estudo divulgado no “Handbook on the lesbian, gay, bisexual, transgender and queeer (LGBTQ) travel segment” (2018) os participantes foram convidados a completar a frase: "Na minha próxima viagem à Europa, quero...". Foram dadas 12 opções e puderam escolher as três principais.

A atividade mais desejada é participar num evento do Orgulho LGBTQ+, um desejo particularmente forte entre os inquiridos russos (mais de um em cada quatro).

Descobrir a vida noturna era um atrativo particularmente forte para russos e brasileiros (que classificaram a vida noturna como mais importante do que visitar um evento do Orgulho) e menos prioritária entre os norte-americanos (10%).

De um modo geral, os inquiridos americanos tendem a procurar uma experiência cultural mais refinada, com um desejo superior à média de visitar monumentos ou locais culturais específicos, socializar com a população local, aprender sobre o património cultural e usufruir de experiências de alta qualidade. Isto pode dever-se ao facto de os eventos do Orgulho LGBTQ+ e a vida noturna LGBTQ+ serem relativamente visíveis e generalizados nos EUA, oferecendo aos viajantes americanos amplas oportunidades para os desfrutar em casa. Assim, as férias europeias estão reservadas para experiências mais exclusivas, como luxo, património e cultura.

Os brasileiros demonstraram níveis de entusiasmo relativamente elevados por todos os aspetos da viagem e tenderam para férias mais ativas (por exemplo, experimentar a vida quotidiana ou socializar com a população local) em vez de relaxar ou realizar atividades relacionadas com a história e o património.

Tendências do turismo LGBTQ +

Voltamos agora ao relatório ‘LGBTQ+ Travel insights’, elaborado pela Associação de Turismo do Porto e Norte. E quando olhamos para o tipo de atividades que os turistas deste segmento mais procuram num destino urbano, destacam-se a gastronomia e as visitas a museus e locais históricos. Apenas 2% dos inquiridos responderam não ter interesse em fazer turismo em destinos de cidade. 

Fonte: ‘LGBTQ+ Travel insights’, ATPN, maio de 2024

Já quando o destino é de natureza, ou outdoor, as principais motivações são a realização de trilhos e de caminhadas, a exploração de parques naturais e a descoberta de praias e de zonas costeiras. É interessante verificar que nenhum dos inquiridos rejeitou a possibilidade de ir para um destino de natureza. 

Fonte: ‘LGBTQ+ Travel insights’, ATPN, maio de 2024


O futuro do mercado de turismo LGBTQ+

Há 3 fatores que podem ajudar a definir este mercado nos próximos anos:

1. As macrotendências que moldam a procura e a oferta no setor do turismo em geral;

2. Até que ponto as pessoas LGBTQ+ conseguem viver sem medo de discriminação, os seus direitos humanos são protegidos por lei e essas leis são respeitadas;

3. A visibilidade das pessoas LGBTQ+ na sociedade e o facto de os fornecedores de turismo nos mercados emissores e destinos sentirem confiança para se envolver abertamente neste mercado.

O relatório da ETC aponta algumas tendências que vão marcar o futuro do turismo LGBTQ+:

Os chamados “espaços gay" deverão continuar em declínio. Na última década, em grande parte da América do Norte, Europa Ocidental, Austrália e Nova Zelândia (ou seja, países onde os direitos LGBTQ+ estão consolidados há algum tempo), lojas, bares, discotecas e até mesmo bairros que antes eram considerados exclusivamente "gays" sofreram uma transformação relativamente rápida, adaptando-se para se tornarem abertos a uma base de clientes mais diversificada ou acabaram mesmo por encerrar.

O conceito de "viagem gay" tornar-se-á mais inclusivo. À medida que a aceitação social das pessoas LGBTQ+ aumenta e que mais pessoas estão dispostas a identificar-se abertamente como lésbicas, gays, bissexuais, transgénero ou queer, é provável que isso impulsione (gradualmente) uma maior visibilidade da população LGBTQ+ em toda a sua diversidade. Com o tempo, os estereótipos tornar-se-ão ainda menos relevantes e, como parte deste processo, o conceito do que constitui uma "viagem gay" irá provavelmente tornar-se cada vez mais difuso.

A internet continuará a impulsionar mudanças no mundo offline. A Internet tem-se mostrado um poderoso agente de mudança para as pessoas LGBTQ+ de muitas formas. Ajuda-as a encontrar-se, aprender e partilhar experiências e, principalmente, serve como meio de apoio a indivíduos que vivem em países onde identificar-se abertamente como LGBTQ+ pode ser perigoso. As redes sociais têm sido particularmente importantes e provavelmente continuarão a impulsionar o processo de maior visibilidade LGBTQ+.

As viagens vão ser motivo de atração para os consumidores LGBTQ+ nos mercados emissores emergentes. A procura por viagens internacionais será provavelmente forte nos próximos anos entre os consumidores dos países em desenvolvimento, especialmente aqueles em que o marketing LGBTQ+ é mais fácil através de canais online e offline.

Os eventos LGBTQ+ serão o catalisador para explorar os destinos de forma mais ampla. Espera-se que estes eventos cresçam e criem um motivo convincente para as pessoas LGBTQ+ viajarem, especialmente se:

• Se realizam numa nova cidade ou país ou adotam um formato inovador;

• Ajudam as pessoas LGBTQ+ locais a ganhar visibilidade;

• Oferecem uma oportunidade para as empresas e os partidos políticos demonstrarem o seu apoio;

• Oferecem um evento chamativo e largamente partilhado nas redes sociais.

No capítulo dos formatos, há iniciativas que se procuram diferenciar, fugindo por exemplo ao formato tradicional do Orgulho LGBT+. A Semana Rosa, na Eslovénia, propõe um roadshow pelo país. Lançar um evento num novo destino também pode ser uma opção, como o Tropout Festival em Malta ou na Nova Caledónia; o Ella Lesbian Festival assegura uma digressão no Nepal; e o Gay Wine Weekend em Sonoma, Califórnia, e o TwoBadTourists Sailing Tour pela Croácia procuram destacar-se através dos respetivos formatos.

Os viajantes LGBTQ+ de mercados emissores maduros vão sair dos roteiros tradicionais. À medida que os viajantes em geral se tornam mais aventureiros e procuram visitar um leque mais diversificado de destinos, a procura irá provavelmente crescer entre os viajantes LGBTQ+ de mercados maduros que procuram visitar países que possam não ter uma população LGBTQ+ local particularmente visível ou um historial de proteção dos seus direitos humanos. No entanto, mantém-se a procura por destinos que estejam preparados para garantir um ambiente seguro e acolhedor para visitantes LGBTQ+.

Estratégias de comunicação no turismo LGBT+:

1. Implemente uma linguagem inclusiva de género em todas as interações: utilize saudações neutras e substitua termos como "marido e mulher" por opções mais inclusivas, como "parceiros" ou "casais".

2. Melhore os processos de reserva e de registo: inclua opções para além de "Sr." e "Sra." e deixe espaço para nomes e pronomes preferidos. Garanta que os check-ins digitais e presenciais respeitam todas as identidades de género.

3. Treine a sua equipa para uma comunicação inclusiva, usando os pronomes corretos e explicando como devem lidar com os erros com profissionalismo. Integre uma linguagem inclusiva nos guiões de atendimento ao cliente e nas comunicações internas.

4. Crie campanhas de marketing autênticas e inclusivas, que incluam turistas LGBTQ+ e que refiram questões como as políticas LGBTQ+ e a segurança.

5. Garanta instalações e políticas inclusivas, com casas de banho neutras em termos de género. Ofereça comodidades personalizadas nos quartos que se adaptem a todos os géneros.

6. Promova uma cultura de inclusão nas parcerias, colaborando com organizações, influenciadores e grupos de defesa LGBTQ+ para fortalecer o seu alcance. Analise as parcerias e os patrocínios para garantir o alinhamento com os valores inclusivos.

7. Monitorize e adapte com base no feedback: faça inquéritos pós-visita para avaliar a eficácia da sua comunicação inclusiva. Atualize regularmente as políticas e as formações para refletir a evolução da língua e das necessidades da comunidade.

Porto e Norte: Oportunidades para captar o turismo LGBTQ+

O turismo LGBTQ+ representa hoje uma das vertentes mais dinâmicas e relevantes do setor turístico global, combinando valores de inclusão, segurança e autenticidade com forte capacidade de consumo e fidelização de marca. Para o Porto e Norte de Portugal, este segmento oferece oportunidades concretas de crescimento sustentável, diferenciação de mercado e valorização da identidade do destino.

O Porto e o Norte, enquanto região de património histórico ímpar, paisagens deslumbrantes, gastronomia rica e hospitalidade genuína, tem todos os ingredientes para se posicionar com mais firmeza junto deste público. Num momento em que os viajantes LGBTQ+ valorizam cada vez mais experiências autênticas e destinos que combinem “culturas históricas com valores modernos”, o Norte de Portugal surge como alternativa complementar a destinos como Lisboa, Madrid ou Barcelona — já mais consolidados neste segmento.

A atratividade de um destino para turistas LGBTQ+ vai além da programação de eventos ou da existência de uma “nightlife” vibrante. Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT), os destinos que defendem abertamente os direitos LGBTQ+ comunicam ao mundo uma imagem de aceitação e respeito — valores cada vez mais valorizados pelos viajantes de todas as origens. A visibilidade do segmento LGBTQ+ também se traduz no impacto dos seus aliados — amigos, famílias, colegas —, que preferem marcas e destinos que refletem os seus valores de inclusão e tolerância. Uma investigação da Ogilvy revelou que 64% dos aliados da comunidade LGBTQ+ nos EUA estão mais propensos a gastar com marcas inclusivas.

Neste contexto, a promoção do Norte de Portugal como destino LGBTQ+ não se limita à captação de turistas. Representa também uma oportunidade de desenvolvimento económico, cultural e social. Criar condições para que os residentes LGBTQ+ vivam com dignidade, segurança e visibilidade permite que contribuam plenamente para a vitalidade do território, seja através do empreendedorismo, da produção cultural ou da inovação no setor turístico.

Adicionalmente, o progresso em matéria de igualdade — como a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo — reforça a atratividade do país para celebrações como casamentos, luas de mel ou aniversários. Estes eventos têm impacto direto no turismo de luxo e na economia local, com maior gasto médio e forte impacto emocional.

Importa também considerar as perceções e motivações dos mercados emissores. Brasileiros, norte-americanos, chineses e japoneses veem a Europa — e países como Portugal — como destinos seguros, progressistas e culturalmente ricos. O Brasil, por exemplo, apesar dos desafios internos no campo dos direitos LGBTQ+, mantém um forte interesse em destinos europeus, desde que estes comuniquem simplicidade, acessibilidade e acolhimento. É essencial, nesse sentido, disponibilizar informação básica em português e trabalhar com influenciadores e meios de comunicação LGBTQ+ no Brasil.

Já para o mercado norte-americano — o mais poderoso em termos de capacidade de consumo —, Portugal surge como um destino romântico, com boa gastronomia, clima ameno e um ambiente inclusivo, especialmente apelativo para casais em celebração de datas especiais. Os viajantes japoneses e chineses, por sua vez, valorizam a participação em eventos LGBTQ+ europeus, como os Prides – o Porto Pride realiza-se, este ano, entre 12 e 14 de setembro -, e mostram interesse crescente por experiências culturais e sociais fora dos circuitos mais tradicionais.

Assim, para o Porto e o Norte de Portugal, afirmar-se como destino LGBTQ+ vai muito além da oportunidade económica. Trata-se de assumir um posicionamento claro em defesa da dignidade humana, do respeito pela diversidade e da criação de uma cultura turística verdadeiramente inclusiva. Promover o destino junto deste segmento não é apenas uma questão de marketing — é uma escolha de valor(es).

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